Amanheceu
Um conto sobre liberdade e maternidade
Um dia ela acordou em um sobressalto com a luz do sol passando pelas frestas da janela e com um silêncio que não combinava com a casa. Pensou ter perdido a hora, procurou o celular na mesinha ao lado da cama para ver que horas era. Estranho, as crianças dormiram a noite toda? Não acordaram ainda?
Viu que era 6:30, sábado. Esperou ouvir um choro ou um chamado “mamãe”, que não veio. Olhou para o lado direito da sua cama de casal e percebeu o lençol arrumado. Levantou e seu chinelo estava no lugar que ela tinha deixado, ninguém havia acidentalmente chutado para baixo da cama ao vir pedir colo na madrugada.
Foi escovar os dentes e só havia a escova dela no copinho. Nada de pasta de dente de tutti-frutti ou escovas de personagens. Lavou seu rosto com tempo, passou filtro solar com tranquilidade, penteou seus cabelos lentamente. Colocou uma roupa sem precisar escolher se dava para amamentar, se dava para agachar, se tinha bolso para guardar o celular. Simplesmente escolheu a roupa que achou ideal para o clima.
As fotos nas molduras espalhadas pela casa mostravam apenas ela, em diferentes pontos turísticos e praias paradisíacas. Era como se ela tivesse vivido uma vida toda diferente, sem marido, sem filhos.
Tomou seu café quente, assistindo um vídeo na televisão que fazia tempo que queria mas não conseguia pois sempre estava passando algum conteúdo infantil.
Pegou apenas sua bolsa e saiu. Na estranheza do dia esqueceu o celular, mas não se importou, não ia fazer falta. O carro estava limpo e organizado, sem cadeirinhas, brinquedos ou farelos. Saiu sem rumo, sem pressa, sem se preocupar em que horas deveria voltar ou se ia conseguir trocar uma fralda com segurança.
No caminho, olhava instintivamente pelo espelho retrovisor para checar se o bebê tinha dormido, mas não havia bebê nenhum.
Andou livremente por um parque, sozinha. Observou crianças correndo e gritando, mães exasperadas chamando a atenção dos meninos que insistiam em subir nas pedras ou atravessar a ciclovia sem atenção. Viu um bebê chorando pedindo colo, uma criança pedindo sorvete, uma mãe procurando na mochila alguma coisa que a criança esperava ansiosamente.
De repente, ouviu uma criança chamando “mãe”, virou o rosto por reflexo e viu que a mãe chamada não era ela.
No almoço, sentou em uma mesa e pôde escolher o que queria comer pensando apenas no que gostava. Não se preocupou com os nutrientes, com o preparo, com os ingredientes utilizados. Comeu a comida quente, no seu ritmo, não se levantou nenhuma vez. Não precisou de artifícios para distrair ninguém e nem para se distrair. Ainda não entendia o que estava acontecendo, mas aceitava, mesmo sentindo a estranheza do vazio. Estava precisando dessa leveza há muito tempo.
Pela primeira vez em 7 anos ela não tinha filhos, não tinha marido. Ela tinha ela, seu tempo e sua liberdade. E um vazio que só aumentava.
Sentiu que ao longo do dia a leveza foi dando espaço para a angústia. Faltava alguém, faltava barulho, faltava propósito. Não entendia o que tinha acontecido, nem como era possível, só queria que aquilo passasse logo. O peito apertava, o ar faltava.
Ao fim do dia, quis ir dormir logo para, quem sabe, acordar desse pesadelo e voltar para a sua vida barulhenta e corrida, mas completa.


